Ricardo Cabral : “A ilustração dá-me prazer e paga contas!”

Entrevista

Ricardo Cabral é um premiado e talentosíssimo ilustrador e autor português. Não há ninguém que não lhe conheça o trabalho, desde os leitores de jornais, de banda-desenhada ou livros ilustrados até transeuntes que apenas olham para anúncios. Prolixo e sempre com qualidade

 

Karga! – Olá! O que é este “Cidades”?

Ricardo Cabral – Este “cidades” é o primeiro volume de um coletâneo de banda desenhada do Lisbon Studio, que é um espaço em Lisboa, partilhado por vários ilustradores e autores de banda desenhada do qual eu faço parte já há algum tempo. Durante muito tempo nós publicámos uma revista online, a WebMag, mas já há algum tempo que falávamos em ter uma publicação ” a sério”, em papel. Depois de quase um ano de trabalho e finalmente termos encontrado com quem trabalhar a nível editorial, a Gfloyd e a Comic Heart, parece que é desta que o projeto vê a luz do dia.

Karga! – De que me vale um livro sobre Lisboa se vivo em Mogofores? O que há aqui para mim?

Ricardo Cabral – Há algumas histórias sobre Lisboa, sim; a da Joana Afonso e a da Marta Teive são histórias intimistas mas mostram bem a nossa capital, mas nem todas o são. As BD do João Tercio e do Filipe Andrade são sobre o Oriente, onde ambos estiveram a viver, no fundo o tema cidades foi escolhido para ser o elo comum entre as várias histórias, mas há aqui BD para todos os gostos, desde que em Mogofores se goste de BD…

Karga! – Em quantos projetos estás metido, ao mesmo tempo?

Ricardo Cabral – Alguns, para mim é difícil recusar trabalho, os projetos de ilustração que me propõem são sempre bem-vindos, até porque são o que paga as contas, e depois há sempre aqueles projetos pessoais pelo meio, que me dão imenso gozo fazer.

Karga! – E tens tempo para isso tudo? Isto é, atrasas cenas e ligas a dizer que te caiu um dente de leite ou geres tudo à alemã?

Ricardo Cabral – Faço muita coisa mas tento não fazer tudo ao mesmo tempo. Nos trabalhos de ilustração que aceito raramente falho os prazos, porque não gosto e não convém (estou a responder-te a isto com uma direta em cima por causa de um trabalho que aceitei com um prazo quase impossível). As coisas que faço para mim vou-as fazendo, com o tempo que elas merecem. Uma coisa de cada vez.

Karga! – É verdade que estamos à espera de um inédito teu, só teu, desde 2014! Isso faz-se??

Ricardo Cabral – Assim há tanto tempo? Bolas… Na verdade eu cansei-me um pouco da maneira com estava a trabalhar… em termos de processo. Passava muito tempo ao computador a colorir a terminar os desenhos feitos rapidamente. Decidi descansar um bocado, fazer coisas mais diretas, mais desenhadas.

Karga! – O teu percurso vai desde a reportagem, diário, ficção, ilustração pura para texto… Já encontraste um de que gostes mais, ou são todos teus filhos e tem pai que é cego, no que toca ao amor?

Ricardo Cabral – Há coisas de que gosto mais, claro. Todos os livros de banda desenhada são os meus filhos, assim como os livros infantis, que foram colaborações mas que me deram muito gozo fazer. Mesmo algum do trabalho comercial que fiz sinto-o o como meu.

Karga! – Falemos da ilustração para notícias… Alguma vez te procuraram, leitores e pessoas que não conhecias, para te dizer que esta ou aquela cena estava bem ou mal, tal como a retrataste?

Ricardo Cabral – Não, já me procuraram para propor trabalho depois de terem visto as minhas coisas em algum lado, e às vezes pessoal mais novo pergunta-me se posso ver o trabalho deles para dar uma opinião.

Karga! – Como fazes as ilustrações para o CM? Ligam-te e descrevem-te o drama ou dizem: “Precisamos de um tipo barbudo com um alguidar cheio de feijão a subir para uma cama”, e pronto?

Ricardo Cabral – É já um processo apurado, afinal eu já colaboro com eles há anos. No jornal eles sabem o que precisam para acompanhar a notícia e é essa a informação que me passam, eu depois tenho três ou quatro horas para fazer a ilustração.

Karga! – Posso fazer a pergunta “Projetos para o futuro”?

Ricardo Cabral – Sabes, sou supersticioso a não ser em relação a isto; dizer que tenho este ou aquele projeto que vai sair nesta ou naquela altura. Sempre que o fiz as coisas não correram bem, por isso prefiro só dizer as coisas quando elas já estão a acontecer…

Karga! – …claro, compreendo, mas, e projetos para o futuro? (Yes!)

Ricardo Cabral –… mas sim, há projeto para o futuro, muitos projetos.

Karga! – Estás feliz?

Ricardo Cabral – Oh sim, bastante feliz.

 

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